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Hoje estou no limite da minha paciência. Não gosto dos dias em que fico reflexiva, pois começo a avaliar minha vida e entristeço. Estou cercada por uma porção de piadas e me sinto como uma palhaça.
Palhaçada na verdade são essas novas regras do telemarketing, que só servirão para atrasar ainda mais o atendimento.
Um atendente que trabalhe num setor de help desk por exemplo, não terá como cancelar ou dar descontos, isso é incumbência do setor comercial. O cliente é que deve prestar mais atenção no atendimento eletrônico, escolher as opções certas e entender que Suporte técnico não é telemarketing. É impossível resolver tudo num único telefonema, há burrocracias demais!
Como saber o problema do cliente se ele não explicar? Como apurar algo sem entrevistá-lo?
Por exemplo o Speedy, todo mundo sabe que é uma porcaria mesmo, por que insistir em ter algo que não funciona?
Por que contratar um produto de uma empresa que escreve o nome errado? "Telefonica" não deveria ter acento circunflexo? Isso já é sinal de pedreiragem!
Eu sou uma desgraçada atendente de Suporte Técnico do Speedy e me sinto muito mal por trabalhar em uma empresa sem credibilidade e que é fonte de muito desgosto para a população. Há dias em que não consigo nem me levantar da cama, mas a mensalidade da universidade me incentiva a colocar aquele headfone na cabeça.
"É temporário", penso. Logo vou sair dessa porcaria, não terei mais que ouvir ameaças nem ser o tempo todo monitorada. Hoje por exemplo, uma cliente ameaçou de mandar a polícia atrás de mim. Há aqueles que gritam, xingam e humilham. Não agüento mais essa vida!
É sufocante que fiquem me vigiando enquanto trabalho, que olhem a tela do monitor, que ouçam o que o falo, que controlem os momentos que vou ao banheiro, que eu não tenha tempo para fazer uma refeição. Esse é o pior momento, não consigo comer comida em 20 minutos e não agüento mais comer só lanche. Recebo apenas três reais por dia de vale refeição, não há como manter a saúde com isso. Estou sempre doente, tenho enxaquecas, meu nariz sangra, estou sempre gripada e com o estômago doendo.
Este não é o meu primeiro serviço, já estou a quase dez anos trabalhando e passei por diversas empresas de vários segmentos. Nunca fui de ficar em casa esperando, fiz dois cursos técnicos e vários outros extras. Nunca tive nada fácil, papai não me deu nada de graça. Não sei falar Inglês, não viajo, não uso roupas da moda. Tenho dois pares de tênis, uma sandália e um velho coturno dos tempos de adolescência. Poucas trocas de roupas, várias camisetas desbotadas. Não é por ser roqueira que sempre ando com coturno, jeans e camiseta de banda desbotada, é por ser pobre mesmo, não tenho outra coisa pra vestir por ter vendido tudo pra alguns brechós.
Não tenho grana nem pra sair, tenho que ser grossa e recusar convites. Evito comer fora, evito fazer amizades. Eu não me sinto a vontade para manter contato com as pessoas, pois quando descobrem onde trabalho, só reclamam.
Estou lutando pra sair de lá desde que entrei naquela agência. Alias, outra coisa que detesto é ter que trabalhar naquela cidade. Só tenho más lembranças de lá, pois vivi os piores da minha vida ali. Perdi a confiança no ser humano depois que conheci uma porção de gente egoísta que andava por lá naquela época.
Creio que merecia algo melhor, um emprego na área que estudo. Depois de tanto sofrimento e humilhação, já era tempo de trabalhar com algo mais saudável e conseguir superar meu limites. Estou presa por códigos e por fios de telefone.
